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O jornalismo português está em crise. Um centro de jornalismo de investigação ancorado na academia pode ajudá-lo a respirar

Somos um grupo de quatro jornalistas e académicos comprometidos com o jornalismo de investigação. Esta é a nossa proposta para o manter vivo em Portugal.

Por Pedro Coelho, Marisa Torres da Silva, Paulo Barriga e Filipe Teles

Entre 2015 e 2021, os órgãos de comunicação social em Portugal perderam 49% da audiência, de acordo com o Anuário Estatístico da Comunicação da Obercom. A circulação paga dos jornais diários, por exemplo, diminuiu 79% entre 2004 e 2022.

As empresas de media que detém os jornais mais prestigiados – Impresa, Global Media Group e Público – sofreram, entre 2007 e 2016, perdas acima dos 50% nos seus volumes de negócio e receitas, segundo outro estudo.

Apesar de os prejuízos acumulados das nove maiores empresas jornalísticas privadas ascenderem a 103 milhões de euros entre 2017 e 2023, Portugal continua a ser dos países da União Europeia em que o Estado menos recursos mobiliza, per capita, para o financiamento do jornalismo.

O financiamento europeu, por outro lado, também é deveras insuficiente: entre 2018 e 2024, os projetos focados no jornalismo receberam, por parte da União Europeia, 42,2 milhões de euros por ano. Um valor insignificante tendo em conta o que se perdeu nas últimas décadas.

No mesmo período, a confiança dos leitores, espectadores e ouvintes nas notícias desceu 12%: segundo o Reuters News Report, em 2015, 66% das pessoas que vivem em Portugal confiavam no jornalismo português; em 2025, esse número desceu para 54%.

Neste contexto, apesar das transformações tecnológicas que o jornalismo sofreu na última década, as empresas de comunicação social portuguesas não têm investido na formação dos seus repórteres. De acordo com um estudo do Sindicato dos Jornalistas, da Casa da Imprensa e da Associação Portuguesa de Imprensa, 59% dos jornalistas que trabalham em órgãos de comunicação não receberam qualquer tipo de formação profissional.

Neste quadro de vulnerabilidade, já se provou, por variadas vezes, que o jornalismo português se encontra à mercê de interesses muito pouco transparentes. A tentativa obscura de tomada de controlo do grupo Global Media por parte do World Opportunity Fund foi apenas o último caso.

Esta crise atinge o panorama mediático português precisamente quando o jornalismo é mais necessário e a liberdade de imprensa se encontra sob ameaça.

Nos últimos anos, devido à ascenção da extrema-direita, temos assistido ao crescimento da descredibilização e da violência contra o jornalismo e os jornalistas. Poucos meses após um jornalista ter sido atacado num evento do partido de extrema-direita, em 2024, o líder do Chega elegeu os jornalistas como um alvo a abater, apelidando-os de “inimigos do povo”.

O jornalismo de investigação nunca conseguiu criar raízes em Portugal

O jornalismo de investigação nunca se enraizou verdadeiramente em Portugal. Um estudo realizado pelos autores desta proposta demonstrou que o jornalismo de investigação esteve largamente ausente na cobertura do maior escândalo financeiro do século XXI em Portugal, a falência do Banco Espírito Santo. Isto antes de o jornalismo português entrar na profunda crise que descrevemos acima.

Outra evidência que aponta para a expressão residual do jornalismo de investigação no país é o facto de Portugal ser um dos poucos países da Europa que não está representado na Global Investigative Journalism Network, a maior e mais prestigiada rede de jornalismo de investigação do mundo. Esta rede nasceu para apoiar as entidades que, respondendo à crise do jornalismo, criaram organizações sem fins lucrativos para fazer jornalismo que produz histórias originais e distintivas, que, infelizmente, as empresas jornalísticas deixaram de financiar.

Se analisarmos, igualmente, as bolsas da Journalism Fund, uma organização essencial no financiamento do jornalismo de investigação na Europa, vemos que Portugal, os jornalistas portugueses e os meios de comunicação do país estão praticamente ausentes.

A criação de um centro de jornalismo de investigação em Portugal pode, todavia, lançar as primeiras bases para começar a inverter este ciclo. O Centro Português de Jornalismo de Investigação (CPJI) pretende semear um ambiente onde o jornalismo de investigação, um bem público em que o mercado português, nunca, realmente, investiu, possa florescer.

Seguindo o modelo da GIJN, que está a fazer crescer o jornalismo de investigação pelo mundo fora, o CPJI pretende criar espaços onde esta expressão jornalística tão essencial à democracia possa prosperar. E colocar Portugal no mapa internacional do jornalismo de investigação.

Na base do modelo que pretendemos seguir está a articulação entre a investigação académica, com uma componente de formação científica e profissional, ao jornalismo profissional, em concreto ao jornalismo de investigação.

Em países como Portugal, onde o financiamento de doadores nacionais é muito difícil de alcançar, as grandes matérias nacionais revelam grande dificuldade em ser investigadas. A impossibilidade de alcançarmos bolsas europeias, se as matérias investigadas forem estritamente nacionais (ou sobretudo nacionais), contribui para a expressão residual da investigação jornalística em Portugal.

Esta contingência está na base da decisão que tomámos de formar uma rede colaborativa dedicada ao estudo, à formação e à prática do jornalismo de investigação.

O CPJI quer apostar na formação de jornalistas e estudantes

O objetivo principal desta rede será o estudo do jornalismo de investigação colaborativo, transfronteiriço, nacional e nos territórios de proximidade, e, em paralelo, juntando a investigação académica ao jornalismo de investigação e ao jornalismo de dados, produzir conteúdos distintivos. Posicionado entre o estudo e a prática, a rede criará um núcleo de formação que oriente investigações académicas de alunos de doutoramento, que estejam a trabalhar o jornalismo de investigação.

Esses orientandos serão igualmente desafiados a colaborarem nas investigações jornalísticas que tivermos em marcha. É objetivo desse núcleo de formação desenhar e concretizar ações de formação em jornalismo de investigação destinadas a jornalistas de proximidade e a alunos de jornalismo das escolas com cursos de jornalismo, sediadas fora dos grandes centros.

Ao nível do estudo e da promoção do jornalismo de investigação é objetivo da rede criar e desenvolver bases de dados que partilhará com a academia e com o mundo profissional, sobretudo com jornalistas que trabalham fora dos grandes centros, manifestamente menos apetrechados para abraçarem os desafios do jornalismo de investigação e do jornalismo de dados.

Os objetivos do CPJI

Rede

Uma rede com estas características nunca foi testada, nos moldes enunciados, em Portugal. Mas nunca foi tão necessária.

Para colocar o país no mapa internacional do jornalismo de investigação e investir na formação desta prática jornalística imprescindível à democracia, contudo, é fundamental o CPJI estabelecer parcerias. Foi nesse sentido que o centro estabeleceu um protocolo com a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH) para que, através da colaboração técnica e científica com o Instituto de Comunicação da NOVA (ICNOVA), possam desenvolver-se atividades de produção de conhecimento e de formação avançada na área do jornalismo de investigação.

O CPJI estabeleceu uma parceria com o ICNOVA.
O CPJI estabeleceu uma parceria com o ICNOVA.

Esta parceria com um dos centros de investigação mais prestigiados na área das Ciências da Comunicação em Portugal e com a faculdade que atrai os melhores estudantes de jornalismo a nível nacional permitir-nos-á recrutar, formar e integrar jovens promissores e, simultaneamente, estimular o aprofundamento científico desta prática jornalística.

Precisaremos, porém, de mais apoios.

Num relatório publicado em 2025, a Civitates, um consórcio de 16 fundações que apoiam os media que produzem jornalismo de interesse público, foi categórica. “Os media independentes não sobrevivem sem o apoio da filantropia”, vaticinou. “Num mundo ideal, os media independentes seriam autossustentáveis financeiramente”, prossegue. “No entanto, no atual clima político e económico, isto não é, simplesmente, fazível.”

Se quisermos preservar o papel do jornalismo ao serviço do público e da democracia num mundo cada vez mais polarizado, avalia a Civitates, “a filantropia precisa de responder ao desafio”. “Os financiadores filantrópicos podem oferecer financiamento sem amarras editoriais e a longo-prazo, fundamental para criar a estabilidade, dar tempo e espaço para os media independentes fortalecerem os seus modelos de negócio em contextos em rápida mudança, enquanto produzem jornalismo de alta qualidade”.

O primeiro estudo que mapeou as organizações jornalísticas sem fins lucrativos na Europa chega a uma conclusão semelhante. O relatório Journalism Value Project, realizado pela Netzwerk Recherche, associação de jornalismo de investigação alemã, apela às entidades financiadoras que ofereçam mais fundos estruturais, ao invés de, como ocorre hoje, providenciarem esse financiamento projeto a projeto. Como disse, em entrevista, um dos líderes destas organizações entrevistados para o referido estudo: o financiamento estrutural “permite-nos concentrar mais no trabalho editorial, sem nos preocuparmos em chegar ao fim do mês e sem perder tempo a preencher formulários para obter fundos relativamente modestos. O financiamento projeto a projeto é um fardo excessivo e prejudica o foco do trabalho jornalístico.”

Um centro de jornalismo de investigação que, em conjunto com a academia, quer produzir jornalismo de qualidade, aprofundado, que forneça contexto e investigue, precisa, portanto, de estabilidade financeira.

Um projeto deste género necessita de um orçamento anual que permita contratar uma pessoa a tempo inteiro para gerir o centro, custear reportagens em vários formatos, pagar os custos de um site e o seu webdesign, contratar freelancers e consultores, ter acesso a assinaturas de jornais, investir na comunicação do centro, e fazer frente a eventuais despesas judiciais.

Inspira-nos o modelo de redação da Columbia Journalism Investigations, o programa de jornalismo para pós-graduados da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia. Este programa contrata estudantes recém-formados e coloca-os a trabalhar em parceria com jornalistas experientes para produzir jornalismo de investigação de grande impacto, em parceria com as principais organizações noticiosas.

A aliança com os chamados meios tradicionais é fundamental para que as histórias de investigação cheguem ao maior número possível de espectadores, leitores e ouvintes.

O Grupo Impresa será o parceiro preferencial do CPJI. Com esta parceria, as investigações do CPJI poderão ser emitidas no programa de informação em horário nobre com maior audiência em Portugal, publicadas no semanário mais lido e difundidas na plataforma de podcasts mais ouvida do país.

IMPRESA
Grupo Impresa será o parceiro preferencial do CPJI.

Para concretizar este modelo, que é, simultaneamente, um projeto de formação académica e um espaço de jornalismo profissional, teremos, igualmente, de oferecer bolsas a estudantes de doutoramento que desejem estudar o jornalismo de investigação para poder formar uma redação que junte estas duas dimensões. O CPJI terá, portanto, de projetar o seu orçamento em ciclos de quatro anos, o período de um doutoramento.

Parte das receitas para concretizar este projeto poderão ser arrecadadas através de modelos de subscrição ou crowdfunding. Estamos, porém, conscientes das muitas limitações desta forma de angariar fundos.

A primeira limitação está no facto de Portugal se destacar anualmente no Digital News Report como um dos países com as menores taxas de subscritores. Num país cujos cidadãos têm pouco poder de compra, apenas o Público e o Expresso têm uma circulação digital paga que ronda os 50 mil. Os restantes jornais têm uma circulação abaixo dos 6 mil.

A adensar este problema, os algoritmos das redes sociais dão cada vez menos visibilidade aos conteúdos noticiosos, o que, por si só, dificulta muito a angariação de fundos. Sobretudo se o órgão de comunicação social em causa não publicar múltiplos conteúdos diariamente.

Por fim, o financiamento vindo da filantropia constitui pelo menos metade dos orçamentos da maioria destas organizações jornalísticas na Europa, o que demonstra que os media noticiosos estão longe de estabilizar um modelo de negócio viável.

O último relatório do Media Monitor for Democracy aponta os “baixos níveis de dinamismo social” como um dos principais fatores para o subfinanciamento do jornalismo em Portugal. O CPJI nasce para mudar este estado de coisas. Mas só o conseguirá fazer com o vosso apoio.

Pedro Coelho

Pedro Coelho é Professor Auxiliar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde ensina desde 2006.

É grande repórter de investigação da SIC. Começou a carreira em 1988.

É um dos jornalistas mais premiados em Portugal. Ganhou dois Prémios Gazeta, recebeu a medalha da Assembleia da República em comemoração dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e, mais recentemente, foi galardoado com o prémio de carreira Mário Mesquita.

Em 2024, presidiu ao 5º Congresso dos Jornalistas, que comemorou os 50 anos da democracia e da liberdade de imprensa.

A aliança entre a academia e o jornalismo tem definido a sua carreira.

Marisa Torres da Silva

Marisa Torres da Silva é Professora Catedrática na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde ensina desde 2006.

Investigadora do ICNOVA, nos últimos anos tem-se dedicado a estudar o discurso de ódio no contexto online.

Já publicou seis livros e 28 artigos revistos pelos pares e, além de dezenas de outras publicações científicas, apresentou perto de 100 comunicações em conferências nacionais e internacionais sobre variados temas, incluindo jornalismo de investigação.

Foi distinguida, em 2018, com o prémio Santander de Internacionalização da Produção Científica da NOVA FCSH.

Paulo Barriga

Paulo Barriga iniciou a carreira de jornalista em 1984 no movimento das "rádios livres".

A sua carreira confunde-se com a história dos últimos 30 anos do jornalismo português: integrou redações e publicou trabalhos na Grande Reportagem, n'O Independente, na Visão, no Expresso, no Diário de Notícias, na Sábado e no Público.

Recebeu vários prémios, nomeadamente da Unesco, da Academia Olímpica e da Comissão Europeia. Foi finalista do True Story Awards, o primeiro prémio de jornalismo com um foco global.

Foi diretor do Diário do Alentejo, o único jornal de capital público no país.

Filipe Teles

Filipe Teles é jornalista de investigação desde os 27 anos.

Apesar da sua curta carreira, já foi nomeado para vários prémios nacionais e internacionais.

Em 2023, com Pedro Coelho, integrou os 12 finalistas do Prémio Daphne Caruana Galizia para o Jornalismo, o mais prestigiado da Europa. Nunca uma equipa portuguesa tinha chegado a esta fase do prémio.

Estudou jornalismo de dados no Lede Program, da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia.

É também doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa.

O que dizem sobre o CPJI

Miguel Poiares Maduro

"É fundamental proteger e promover o jornalismo de investigação e a formação e qualificação de jornalistas. O novo espaço público que está em construção não pode dispensar a qualidade dos processos editorais ou de investigação resultantes dos princípios e regras deontológicas em que assenta o jornalismo. Embora o jornalismo possa vir a ter lugar em novos meios e de novas formas ele não pode dispensar esses princípios fundamentais que sempre o regeram. Para a solidez desses princípios e a sua sobrevivência é também fundamental uma relação forte com a ciência. Só posso desejar o maior sucesso a um projeto que parte desses pressupostos."

Miguel Poiares Maduro Professor Universitário
Irene Pimentel

"A democracia necessita de jornalismo de investigação para sobreviver e alargar-se. Por isso apoio a criação do CPJI."

Irene Pimentel Historiadora
João Costa

"A qualidade das democracias passa pela liberdade que os jornalistas têm de ter para investigar e nos dar o "outro lado" da realidade, para nos despertar para temas que não conhecemos, para dar voz aos que estão silenciados. Este projeto é um sinal de esperança em tempos em que os ataques à liberdade de imprensa – e portanto aos valores humanistas e democráticos – se multiplicam."

João Costa Professor Universitário
Alexandra Leitão

"Em tempos de desinformação e notícias falsas apoiar o jornalismo de investigação independente é um imperativo de cidadania para proteger a democracia, o estado de direito e os valores da verdade e da decência."

Alexandra Leitão Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa
Marcelo Rebelo de Sousa

O antigo Presidente da República apoia o CPJI, considera esta uma "Iniciativa muito interessante", disponibilizando-se para estar presente em acontecimentos que venham a ser organizados pelo CPJI.

Marcelo Rebelo de Sousa Ex-Presidente da República
João Maria Jonet

"Esta iniciativa parece-me essencial para que o jornalismo possa voltar a existir em Portugal, não como megafone de opiniões, mas como promotor da verdade e dos factos que são mais difíceis de encontrar."

João Maria Jonet Consultor Político
Nuno Artur Silva

"Nunca como agora foi tão importante defender o jornalismo e o fundamental no jornalismo, que é o jornalismo de investigação. Num tempo em que as democracias estão ameaçadas pela disseminação de desinformação nas redes sociais e em órgãos de comunicação social que estão capturados ou ao serviço de interesses privados, ou reféns de uma lógica comercial que só visa ter audiência, ou controlados pelos vários governos ou simplesmente fragilizados e diminuídos na sua capacidade de informar, é preciso encontrar novos caminhos para o jornalismo. Um projecto como este do CPJI, que assenta na investigação jornalística e está ancorado à academia, deve ser apoiado por todos nós os que defendemos um jornalismo livre, independente e rigoroso, indispensável para uma democracia que se quer cada dia mais forte."

Nuno Artur Silva Produtor
Daniel Oliveira

"Defender e promover o jornalismo de investigação é defender e promover o escrutínio de todos os poderes. Sem ele, a sociedade fica indefesa perante o autoritarismo, a arbitrariedade, a incúria, a incompetência ou a corrupção. O CPJI pode ser uma âncora para que este escrutínio sério, que exige tempo e meios, não sucumba à crise do jornalismo, que acompanha a crise da democracia."